Por Mônica Oliveira
A criação de um espaço virtual, no qual a circulação de informações, inicialmente, atendesse a fins militares estratégicos, foi o objetivo da Arpanet, posteriormente utilizada pela comunidade científica, por meio das universidades. O acesso de jovens estudantes a tecnologia, num contexto sócio-histórico de grande efervescência popular, final da década de 1969, quando grupos sociais exaltavam a comunicação solidária, acabou por influenciar o sistema de fluxos de informações em rede, como tendência comunitarista. O espaço que, em princípio refletia a hegemonia de grupos ligados ao processo de produção industrial, permitia um aplicativo que minou a nova característica – mais colaborativa – a Web tornou-se o descontrole da Internet. Logo uma dinâmica de comutação se tornou ascendente. Dessa forma uma rede de relacionamentos foi se desenhando, com ela uma nova forma de interação humana surgiu. O novo espaço onde se trava o conhecimento, com a exposição de idéias, opiniões, além de outras manifestações tornou-se, conforme estudos de Pierre Levi, lócus das relações humanas, pautando as configurações culturais. Seguindo essa linha Antonio Negri, sustenta o conceito de multidão, como o conjunto de singularidades. Para ele, a construção relacional entre pessoas com interesses convergentes origina o reconhecimento a partir do outro e cria essa singularidade. Portanto, as vivências, “trocas” entre as pessoas é a condicionante para a existência da multidão – “a vida se concebe a partir de fluxos subjetivos” – postula Deleuze.
Liberdade vigiada
Tendo em vista o exposto a Internet tem sido o lócus desses novos agentes construtores da pós-modernidade, pois nela pessoas de vários pontos do planeta passam, inclusive em tempo real, compartilhando, divergindo ou até mesmo em postura voyerista buscando o diverso/semelhante. O “livre” acesso a conteúdos variados e a lógica de cooperativismo, num espaço passível de controle, cria pontos de fuga “resistência” e dá mobilidade ao usuário, que mesmo imerso na rede vai e vem como e quando quiser.
O novo espaço trouxe consigo uma nova temporalidade, que não pode ser medida, pois o tempo da vida se confunde com o tempo do trabalho, diferente da modernidade, quando vida e trabalho podiam ser medidos – “Vivemos em um tempo unificado”, postula Negri – é um tempo em que o grau de imersão na nova realidade é tão elevado que há uma dispersão. Assim a exploração da vida possibilita também um controle sobre ela. Mesmo sendo vista como território de liberalidade a Internet, também funciona como preposto de grandes capitais, portanto, mesmo havendo esses pontos de fuga, o controle é ferramenta de manutenção da hegemonia dessas economias. Sites de relacionamentos como Orkut e Blogs são verdadeiros bancos de dados sobre milhares de pessoas, que têm seus perfis avaliados – método bem utilizado por empresas que buscam informações na hora de selecionar candidatos a algum a cargo, ou até mesmo para saber mais sobre funcionários. Esse controle se dá também, segundo Negri, por meio de sanções, multas e exclusão, garantindo assim uma reserva em detrimento a propriedade flutuante, que tem um obstáculo a expressão.
Diante do exposto é preciso esclarecer que há gente fora desse processo, sabe-se que boa parte da população brasileira tem pouco ou nenhum acesso à Internet, portante se quer podem usufruir dessa cultura de redes. Dar acesso, apenas para endossar o discurso da Inclusão digital não é o bastante para se construir um comum de fato. Um projeto de inclusão política e cidadã é necessário, para que usuários da rede que vivem em periferias possam utilizar essa ferramenta de forma construtiva, percebendo que ela pode ser muito mais que o “oba oba” do Orkut e do MSN ou o apelo voyeur do You Tube. Outro ponto a ser destacado quanto a essa cultura virtual é a questão do espaço físico de ação. É nesse espaço que há o enfrentamento e debate de problemáticas que envolvem o cotidiano popular e são formados indivíduos críticos, capazes de interferir na realidade por meio do debate político, ali, de forma simples em suas comunidades as pessoas podem ter atitudes transformadoras. Ainda que massa e multidão coabitem o mesmo espaço um novo esboço surge dessa interdependência oriunda das novas tecnologias. Educar as massas para tal contexto é necessário para que elas possam participar ativamente desse movimento, para amenizar os impactos do modelo econômico vigente.